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UM MÉDIUM PINTOR CEGO

9 de dez de 2010

Livro dos médiuns



Médiuns sonâmbulos: os que, em estado de sonambulismo, são assistidos por Espíritos. (Nº 172.)

Médiuns pintores ou desenhistas: os que pintam ou desenham sob a influência dos Espíritos. Falamos dos que obtêm trabalhos sérios, visto não se poder dar esse nome a certos médiuns que Espíritos zombeteiros levam a fazer coisas grotescas, que desabonariam o mais atrasado estudante. Os Espíritos levianos se comprazem em imitar. Na época em que apareceram os notáveis desenhos de Júpiter, surgiu grande número de pretensos médiuns desenhistas, que Espíritos levianos induziram a fazer as coisas mais ridícuas. Um deles, entre outros, querendo eclipsar os desenhos de
Júpiter, ao menos nas dimensões, quando não fosse na qualidade, fez que um médium desenhasse um monumento que ocupava muitas folhas de papel para chegar à altura de dois andares. Muitos outros se divertiram fazendo que  os médiuns pintassem supostos retratos, que eram verdadeiras caricaturas. (Revue Spirite, agosto de 1858.)

Fonte: Aptidão especiais dos médiuns,dos médiuns especiais, livro dos Médiuns, Allan Kardec , FEB

Revista espírita, Março 1864.

Um de nossos correspondentes de Maine-et-Loire, Sr. doutor C..., nos transmite o fato seguinte:
"Eis um curioso exemplo da faculdade medianímica aplicada ao desenho, e que se manifestou vários anos antes que o Espiritismo fosse conhecido, e mesmo antes das mesas girantes. Há três semanas, estando em Bressuire, eu explicava o Espiritismo e as relações dos homens com o mundo invisível, a um advogado de meus amigos, que não lhe conhecia a primeira palavra; ora, eis o fato que me contou como tendo uma grande relação com o que lhe dizia. Em 1849, disse ele, ia com um amigo visitar a aldeia de Saint- Laurent-sur-Sèvres e seus dois conventos, um de homens e o outro de mulheres. Fomos recebidos da maneira mais cordial pelo Padre Dallain, superior do primeiro, e que tinha também autoridade sobre o segundo. Depois de ter nos levado a passear nos dois conventos, nos disse: "Quero agora, senhores, vos mostrar uma das coisas mais curiosas do convento das senhoras." Fez trazer um álbum onde admiramos, com efeito, aquarelas de uma grande perfeição. Eram flores, paisagens e marinhas. "Estes desenhos, tão bem sucedidos, nos disse, foram feitos por uma de nossas jovens religiosas que é cega." E eis o que ele nos contou de um adorável buquê de rosas das quais um botão era azul: "Há algum tempo, em presença do Sr. marquês de La Rochejaquelein e vários outros visitantes, chamei a religiosa cega e lhe pedi para colocar-se em uma mesa para desenhar alguma coisa. Diluíram-se-lhe as cores, deram-lhe papel, lápis, pincéis, e ela começou imediatamente o buquê que vedes. Durante seu trabalho, colocou-se várias vezes um corpo opaco, seja cartão ou prancheta entre seus olhos e o papel, e o pincel por isso não continuou menos a caminhar com a mesma calma e a mesma regularidade. Sobre a observação de que o buquê era um pouco magro, ela disse: "Pois bem! vou fazer partir um botão da axila deste ramo." Enquanto ela trabalhava nessa retificação, mudou-se o carmim do qual se servia pelo azul; ela não se apercebeu da mudança, e eis porque vedes um botão azul" Os Sr. abade Dallain, acrescenta o narrador, era tão notável pela sua ciência, sua grande inteligência, quanto por sua alta piedade; não encontrei, disse ele, ninguém que me haja inspirado mais de simpatia e de veneração. O fato não prova, em nossa opinião, de maneira evidente, uma ação medianímica. Pela linguagem da jovem cega, é certo que ela via, de outro modo não teria dito: "Vou fazer partir um botão da axila deste ramo." Mas o que não é menos certo, é que ela não via pelos olhos, uma vez que continuava seu trabalho apesar do obstáculo que se lhe colocava à frente. Ela agia com conhecimento de causa, e não maquinalmente como um  médium. Parece, pois, evidente que era dirigida pela segunda vista; via pela visão da alma, abstração feita da visão do corpo; talvez mesmo estava, de maneira permanente,num estado de sonambulismo desperto.
Fenômenos análogos foram muitas vezes observados, mas contentava-se de achá-los surpreendentes. Sua causa não podia ser descoberta, pela razão que, ligando-se essencialmente à alma, seria preciso primeiro reconhecer a existência da alma; mas admitido esse ponto, não bastaria ainda; faltaria o conhecimento das propriedades da alma e o das leis que regem suas relações com a matéria. O Espiritismo, revelando-nos a existência o perispírito, nos fez conhecer, podendo exprimir-se assim, a fisiologia dos Espíritos; por aí nos deu a chave de uma multidão de fenômenos incompreendidos, qualificados, à falta de melhores razões, de sobrenaturais por uns, e pelos outros de  extravagâncias da Natureza. Pode a Natureza ter extravagâncias? Não, porque as extravagâncias são caprichos; ora, a Natureza sendo a obra de Deus, Deus não pode ter caprichos, sem isso nada seria estável no Universo. Se há uma regra sem exceção, seguramente, essa deve ser a que rege as obras do Criador; as exceções seriam a destruição da harmonia universal.
Todos os fenômenos se ligam a uma lei geral, e uma coisa não nos parece extravagante senão porque não a observamos senão de um único ponto, ao passo que considerando se o conjunto, se reconheceria que a irregularidade desse ponto não é senão aparente e depende de nosso ponto de vista limitado.
Isto posto, diremos que o fenômeno do qual se trata não é nem maravilhoso nem excepcional, isso é o que vamos tratar de explicar. No estado atual de nossos conhecimentos, não podemos conceber a alma sem seu envoltório fluídico, perispiritual. O princípio inteligente escapa completamente à nossa análise; não o conhecemos senão por suas manifestações, que se produzem com a ajuda do perispírito; é pelo perispírito que a alma age, percebe e transmite. Liberta do envoltório corpóreo, a alma ou Espírito é ainda um ser complexo. A teoria, de acordo com a experiência nos ensina que a visão da alma, do mesmo modo que todas as outras percepções, é um atributo do ser inteiro; no corpo ela está circunscrita ao órgão da visão; e é preciso o concurso da luz; tudo o que está sobre o trajeto do raio luminoso a intercepta. Não ocorre assim com o Espírito, para o qual não há nem obscuridade nem corpos opacos. A comparação seguinte pode ajudar a compreender essa diferença. O homem, a céu aberto, recebe a luz de todos os lados; mergulhado no fluido luminoso, o horizonte visual se estende todo ao redor. Se está fechado numa caixa na qual não é praticada senão uma pequena abertura, tudo ao redor de si está na obscuridade, salvo o ponto por onde chega o raio luminoso. A visão do Espírito encarnado está neste caso, a do Espírito desencarnado está no primeiro. Esta comparação é justa quanto ao efeito, mas não o é quanto à causa; porque a fonte da luz não é a mesma para o homem e para o Espírito, ou, melhor dizendo, não é a luz que lhe dá a faculdade de ver.
A cega de que se trata via, pois, pela alma e não pelos olhos; eis porque o corpo opaco colocado diante de seu desenho não a dificultava mais do que se diante dos olhos de um vidente fosse colocado um cristal transparente; é também porque ela podia desenhar à noite tão bem quanto de dia.
O fluido perispiritual irradiando tudo ao seu redor, penetrando tudo, levava a imagem, não sobre a retina, mas à sua alma. Nesse estado, a visão abarca tudo? Não; ela pode ser geral ou especial segundo a vontade do Espírito; pode ser limitada ao ponto onde concentra a sua atenção. Mas, então, dir-se-á, por que não percebeu ela a substituição da cor? Pode-se primeiro que a atenção levada sobre o lugar que ela queria colocar a flor a tenha desviado da cor; aliás, é preciso considerar que a visão da alma não se opera pelo mesmo mecanismo que a visão corpórea e que assim há efeitos dos quais não poderíamos nos dar conta; além disso, é preciso notar que nossas cores são produzidas pela refração de nossa luz; ora, as propriedades do perispírito sendo diferentes das de nossos fluidos ambientes, é provável que a refração ali não produziu os mesmos efeitos; que as cores não têm para o Espírito a  mesma causa que para o encarnado; ela podia, pois, pelo pensamento,ver rosa o que nos parecia azul. Sabe-se que o fenômeno da substituição das cores é bastante freqüente na visão comum. O fato principal é o da visão bem constatada sem o concurso dos órgãos da visão. Esse fato como se vê, não implica a ação medianímica, mas não exclui não mais, em certos casos, a assistência de um Espírito estranho. Essa jovem podia, pois, ser ou não ser médium, e que um estudo mais atento teria podido revelar.Uma pessoa cega gozando dessa faculdade seria um sujeito precioso de observação; mas para isso ser-lhe-ia necessário conhecer a fundo a teoria da alma, a do perispírito,e por conseguinte o sonambulismo e o Espiritismo. Nessa época não se conheciam essas coisas; hoje mesmo não é nos meios onde se os considera como diabólicos que se poderia entregar-se a esses estudos. Isso não é não mais naqueles onde se nega a existência da alma que se pode fazê-lo. Um dia virá, sem dúvida, em que se reconhecerá que existe uma física espiritual, como se começa a reconhecer a existência da medicina espiritual.

Fonte: Um médium Pintor Cego,Revista Espírita, Março de 1864, Allan Kardec, Editora Ide, 1ª edição. SP, Brasil 
 Imagem: Google                                       

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Luciano Dudu